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Arquivo GOTHA: MONARQUIA: A LONGA ESPERA DE UM PRÍNCIPE


Trazemos a reportagem e entrevista feita com o Príncipe Dom Pedro Henrique de Orleans e Bragança, Chefe da Casa Imperial do Brasil de 1921 a 1981, e publicada na edição de 11 de agosto de 1971 da revista “O Cruzeiro”. 

Texto de MARY DUBUGRAS.

Fotos de WALTER LUIZ.


Aos 62 anos de idade, Dom Pedro Henrique de Orleans e Bragança, neto da Princesa Isabel, espera o retorno da Monarquia. Para ele, o legítimo sucessor do Trono e da Coroa Brasileira após a renúncia de seu tio, a volta do Regime Imperial é só uma questão de tempo e de condições favoráveis.


Em sua granja de Vassouras, onde mora com a mulher, a Princesa Dona Maria Elisabeth, e cinco de seus doze filhos, Dom Pedro Henrique de Orleans e Bragança, legítimo sucessor do Trono Imperial no Brasil, espera a volta de uma Monarquia, que para ele é inevitável:


– Acredito no retorno porque em outros países, como a Espanha, os primeiros passos estão sendo dados. Por que então o Brasil não seguiria esse caminho, se foi descoberto, colonizado e governado por uma Monarquia? Desde 1808 até 1889, o País foi regido diretamente por Imperadores. Teve, pois, toda uma formação nesse sentido, e devemos lembrar que foram os Imperadores que asseguraram a unidade de nosso território, da língua e da fé. A própria independência foi obra da Monarquia – primeiro com vinda de Dom João VI para o Brasil, depois, em caráter definitivo, com a ação de Dom Pedro I. Como se tudo isso não bastasse, podemos ainda citar a abolição da escravatura, realizada pela Princesa Isabel, que, na época, sabia muito bem que seu ato estava colocando em risco o regime monárquico.


MINORIA

Para Dom Pedro Henrique, a Proclamação da República não foi absolutamente a expressão da vontade do povo brasileiro, mas apenas uma ação praticada por uma minoria descontente, que se aproveitou dos momentos de crise que o governo atravessava na época – a perda do trabalho do escravo e consequentemente do poderio econômico dos “grandes senhores”; a idade avançada de Dom Pedro II; as guerrilhas militares e revoltas populares em diversos pontos do País.


– O povo não participou do momento, mas apenas assistiu surpreendido ao desenrolar dos fatos e à vinda de um regime completamente desconhecido para todos.


Embora não critique abertamente nenhum dos governos que sucederam ao Império, Dom Pedro Henrique vê na Monarquia a maior força de coesão de um País, não só pelo seu caráter de permanência, como também pela sua capacidade de união dos três Poderes com o povo.


– A Revolução de 1964 serviu como medida moralizadora da discórdia então reinante. O objetivo foi preservar a ordem pública e trazer de volta o clima de segurança e desenvolvimento. A continuidade dos governos militares prova que ainda, infelizmente, se faz necessária a participação ativa das Forças Armadas. Com o mesmo objetivo, sem riscos de desfiguração do regime e conservando uma coesão real, a Monarquia poderia proporcionar um ambiente de tranquilidade. Ela, que já conhece a verdadeira paz, teria mais facilmente condições para garantir o desenvolvimento cultural e financeiro da Nação, sem necessidade de pleitos eleitorais periódicos com suas alterações na política.


Dom Pedro Henrique assegura não ser contra os militares, mas acha que não cabe às Forças Armadas a direção de um País, a não ser em casos especiais.


CERTEZA

Munido de documentos que provam ser ele o legítimo sucessor da Monarquia, Dom Pedro Henrique mostra-se tão seguro de seus direitos quanto da volta do regime:


– Quando a Monarquia voltar, caberá a mim o governo, já que Dom Pedro de Alcântara, meu tio mais velho, renunciou ainda em solteiro. Com esse ato, devidamente comprovado por documento autenticado, o filho mais velho da Princesa Isabel pôs fim a qualquer possibilidade de governar o Brasil. Além disso, como sua decisão foi anterior ao seu casamento, a renúncia se estendeu a todos os filhos que viesse a ter.


Para confirmar suas palavras, Dom Pedro Henrique mostra uma carta escrita pela avó, no exílio, em que ela comunica aos membros do Diretório Monarquista o casamento dos dois filhos mais velhos e acrescenta que, com a renúncia de Dom Pedro de Alcântara, o Trono do Brasil cabe a Dom Luiz.


A renúncia foi voluntária, e os dois irmãos continuaram amigos. Dom Pedro nunca se arrependeu de seu ato e isso pode ser provado através de uma carta que escreveu ao Dr. Sebastião Pagano, em 1935, em que se recusava a promover a união dos monarquistas remanescentes no Brasil. Nessa carta, confirma ainda que o Trono Brasileiro já pertence a mim.


Dom Pedro Henrique está tão certo da volta da Monarquia, que já tem até traçadas as principais diretrizes de seu governo. O regime seria tradicional, sem grandes reformas a princípio, e a sede continuaria em Brasília, “por uma questão de economia”, e os ministérios continuariam com as mesmas atribuições que têm atualmente.


– A maior mudança será a criação de um Conselho da Coroa e a escolha de um Primeiro Ministro de minha inteira confiança, com plenos poderes, mas podendo ser substituído, se assim for conveniente.
A Câmara dos Deputados seria transformada em Câmara dos Representantes e o Senado voltaria aos padrões do Período Imperial de Dom Pedro I. Nenhum dos exemplos monárquicos atuais seria aproveitado no Brasil, pois, segundo o Príncipe, o que existe são apenas repúblicas coroadas.


Enquanto a Monarquia não vem, Dom Pedro Henrique cuida de sua granja, pinta quadros e dá aos filhos uma educação dirigida para os problemas nacionais.


– Desta maneira, eles poderão servir ao Brasil com real conhecimento de todos os setores e das possíveis deficiências. Procurei ainda dar-lhes um exemplo de patriotismo e amor por tudo que representa o Brasil e seu povo. Tenho certeza de tê-los preparado para serem bons governantes.


Foto: SS.AA.II.RR. o Príncipe Dom Pedro Henrique de Orleans e Bragança (1909-1981), Chefe da Casa Imperial do Brasil de 1921 ao seu falecimento, e sua esposa, a então Princesa Consorte do Brasil, Dona Maria da Baviera de Orleans e Bragança (1914-2011), acompanhados do seus quatro filhos mais novos, SS.AA.RR. os Príncipes Dom Francisco e Dom Alberto e as Princesas Dona Maria Thereza (hoje, Sra. Johannes Hessel de Jong) e Dona Maria Gabriela de Orleans e Bragança, na então residência da Família Imperial Brasileira, o Sítio Santa Maria, em Vassouras (RJ), no ano de 1971.

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